Você já fez exames que voltaram “normais”, mas continua com aquela gordura que não sai de jeito nenhum de um lugar específico do corpo?
Se sim, respira: o problema provavelmente não é comer demais ou falta de disciplina. O lugar onde o seu corpo acumula gordura não é aleatório. Ele é definido pelo seu momento hormonal, e isso os exames de rotina quase nunca mostram.
O ideal é unir uma boa análise de exames a uma boa análise do corpo. E a pessoa mais preparada para observar o seu corpo é você.
Primeiro: como o excesso de gordura se forma
O corpo forma gordura quando sente que há energia sobrando que não será usada naquele momento. Isso acontece por três motivos principais:
- Comer alimentos de baixa densidade nutricional e alto valor calórico. O problema não é o volume. Comida de verdade traz saciedade. O excesso vem do que não sacia: biscoito, pão, bebidas doces.
- Receber muita energia de uma vez. Picos de açúcar no sangue: doces, bebidas doces, refinados ou refeições muito grandes. O corpo não precisa de tudo naquela hora e estoca.
- Metabolismo lento. Comum em quem come pouco nutriente e tem histórico de muitas dietas, restrições e jejuns. O corpo, que é muito inteligente, se adapta à escassez e passa a gastar menos.
Formar gordura envolve esses fatores. Mas para onde ela vai é o seu hormônio predominante que decide.
Perfil 1: barriga em volta do umbigo (cortisol)
Gordura ao redor do umbigo, às vezes subindo um pouco, e também nas costas e na linha do sutiã. Aqui pensamos no cortisol, o hormônio do estresse.
E não é só agenda cheia: são também os hábitos que estressam o corpo. Quando o corpo está em alerta, ele coloca açúcar no sangue mesmo sem você comer, e isso estimula a formação de gordura. Você pode estar em jejum prolongado e, se estiver estressada, estar com a glicemia alta.
Primeiros passos:
- Respeite o relógio biológico: não dormir tarde, não comer tarde, não ficar na tela até tarde. O ideal é jantar até as 20h e estar dormindo até as 22h.
- Não pule o café da manhã: coma dentro de 1 a 2 horas depois de acordar.
- Tire os carboidratos ruins (bebidas doces, farinha branca, frutas muito doces ou concentradas, como fruta seca beliscada o dia todo). A vontade de pão, tapioca e bolo costuma vir justamente do cortisol alterado e do sono tarde.
Perfil 2: barriga “boia”, nos flancos (insulina)
A gordura circunda a cintura, nos flancos, como uma boia, e pode vir junto com gordura nos braços e na região do sutiã. É comum perto, durante e depois da menopausa, quando se perde músculo nas pernas e tudo se acumula na parte de cima. O hormônio envolvido é a insulina.
Muitas vezes só se pede glicemia de jejum, sem insulina de jejum, hemoglobina glicada ou curva de insulina. E a insulina alta demais estimula o crescimento de tecidos, inclusive o de gordura.
Primeiros passos:
- Jejuns um pouco mais longos que as 12 horas que considero padrão (14 a 16 horas, 2 a 3 vezes por semana) podem ajudar. Se você ainda menstrua, precisa saber como fazer. E lembre: jejum é estratégia; estar bem nutrida vem antes.
- Mais fibras e variadas: de 4 a 6 xícaras de vegetais por dia, psyllium, chia, sementes, frutas ricas em fibra como a goiaba. Comece as refeições pelas fibras.
- Vinagre de maçã, cacau, canela e levedura nutricional (se tolerar), gorduras boas (azeite, abacate, castanhas) e proteínas.
- Atenção ao açúcar escondido: no cafezinho, nos beliscos e em alimentos “saudáveis” que disparam a insulina. Veja também o post sobre índice glicêmico.
Perfil 3: quadril, coxas e bumbum (estrogênio)
Aqui o hormônio é o estrogênio. Em excesso, ele estimula exatamente culote, celulite e gordura localizada. Há duas variações:
- Quadril e coxas + barriga: comece pelas estratégias do perfil 2, porque muita insulina também estimula muito estrogênio.
- Barriga sequinha, quadril e coxas maiores: cuide do que aumenta o estrogênio.
Primeiros passos:
- Álcool o mais perto de zero possível. Qualquer bebida alcoólica aumenta o estrogênio e reduz a progesterona, principalmente para mulheres 35+ e na perimenopausa.
- Evite excesso de laticínios e carnes gordas, que dificultam a eliminação do estrogênio.
- Mais vegetais e, no jantar, proteínas vegetais, grãos e leguminosas. Se tolerar, brássicas (brócolis, couve-flor, rabanete, repolho), além de cenoura e beterraba.
- Low carb tende a dar pouco resultado nesse perfil. Funciona melhor uma alimentação de modulação glicêmica, rica em fibras e com estímulo à detoxificação. Leia sobre predominância estrogênica e o ciclo das sementes.
Perfil 4: gordura no corpo todo e inchaço (tireoide)
Ganho de gordura bem distribuído, aspecto inchado e retenção de líquido na parte de baixo do corpo. Aqui pensamos nos hormônios da tireoide.
Mesmo com exames normais, o T3 (o hormônio ativo) pode estar baixo ou não se conectar bem aos receptores. É o que chamamos de metabolismo lento. Essa pessoa costuma sentir mais frio, ter intestino preso, queda de cabelo e de sobrancelha. Faça o teste do metabolismo lento.
Primeiros passos:
- O pior erro é comer pouco. É preciso reativar o metabolismo, aumentando a comida aos poucos, de forma progressiva.
- Alimentos de alta densidade nutricional: miúdos (fígado de galinha é o meu favorito, coração, moela), sementes de abóbora e girassol, gema de ovo, algas.
E tudo se conecta: com a tireoide baixa, a tendência à predominância estrogênica aumenta. É o efeito dominó, que também pode virar a nosso favor.
Dúvidas mais frequentes
Me identifiquei com mais de um perfil. Por onde começo?
É comum. Os perfis 1 e 2 costumam andar juntos, e o perfil 3 com barriga começa pelas estratégias do perfil 2. Comece pelo que mais se destaca no seu corpo.
Fazer dieta restritiva ajuda a tirar a gordura localizada?
Fazer a dieta errada para o seu perfil pode até travar o resultado. No perfil da tireoide, por exemplo, comer pouco piora o metabolismo.
Jejum serve para todo mundo?
Não. Jejum é estratégia, faz mais sentido no perfil da insulina e precisa de cuidados para quem ainda menstrua.
Estresse realmente engorda?
Pode engordar. O cortisol alto eleva a glicemia mesmo sem comida e estimula o acúmulo de gordura na barriga.
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